A escadaria que também é uma máquina de água
Vista de longe, a escadaria do Santuário do Bom Jesus do Monte é um percurso simbólico: sobe-se em zigue-zague pela encosta, de patamar em patamar, cada um com o seu significado religioso. Vista de perto, é também outra coisa — um sistema hidráulico barroco cuidadosamente desenhado, em que a água que corre pelos repuxos e pelas fontes não está ali por acaso nem por decoração pura. Está ali porque, no século XVIII, mostrar água a correr numa encosta era, também, uma demonstração de engenharia.
Uma escadaria construída com água
A construção da atual escadaria monumental do Bom Jesus começou em 1722 [[VERIFICAR: data exata de início e faseamento completo da obra ao longo do século XVIII]], por iniciativa da arquidiocese de Braga, num período de grande investimento urbano e religioso na cidade — o mesmo período em que surgiram vários dos chafarizes catalogados na página Fontes e Chafarizes. A escadaria não foi construída de uma só vez: cresceu ao longo de décadas, por troços sucessivos, o que explica variações de estilo entre patamares. [[VERIFICAR: cronologia detalhada de cada troço]]
O motivo central da escadaria é a chamada Via Sacra, com capelas dedicadas à Paixão de Cristo, mas o troço mais conhecido do ponto de vista da água é a Escadaria dos Cinco Sentidos: uma sucessão de patamares, cada um com uma fonte alegórica associada a um dos sentidos humanos — a água como metáfora da experiência sensorial, antes de chegar ao patamar seguinte, dedicado às Três Virtudes. [[VERIFICAR: nomenclatura exata e ordem das fontes de cada sentido]]
De onde vinha a água
Para que os repuxos funcionassem sem bombas mecânicas — uma tecnologia ainda incomum em Portugal no século XVIII — era preciso captar água numa cota mais alta do que os próprios repuxos, e deixá-la descer por gravidade através de um sistema de condutas até cada fonte. A captação fazia-se no próprio monte, num ou em vários pontos acima da escadaria. [[VERIFICAR: localização exata e caudal da captação original, e se ainda alimenta as fontes hoje ou se foi substituída por rede canalizada]]
É esta lógica — água que desce sozinha, pela força da gravidade, de um ponto alto para um baixo — que liga o Bom Jesus ao resto deste site: é, no fundo, o mesmo princípio de engenharia que já tinha trazido água a Bracara Augusta dezassete séculos antes, através do aqueduto romano. A cidade muda, a tecnologia melhora, mas a física da água a descer por gravidade mantém-se.
O que resta hoje
A escadaria e as suas fontes mantêm-se, e o conjunto do Bom Jesus do Monte foi classificado Património Mundial da UNESCO em 2019, integrado na candidatura dos santuários portugueses de culto marial e cristológico. É hoje um dos locais mais visitados de Braga, e continua a ser possível subir a pé, patamar a patamar, seguindo exatamente o percurso simbólico e hidráulico desenhado no século XVIII — ou usar o funicular, também histórico, que sobe ao lado da escadaria. [[VERIFICAR: ano de inauguração do funicular]]
No mapa do traçado, a camada "Século XVIII" mostra o Bom Jesus como ponto terminal da nova rede de água barroca da cidade.